Um satélite sul-coreano, um foguete neozelandês

Em 30 de janeiro de 2026, o satélite de observação terrestre NEONSAT-1A seguiu para o espaço a partir da península de Māhia, na costa leste da Ilha Norte da Nova Zelândia. O aparelho foi desenvolvido sob a liderança do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (KAIST), mas não decolou do Centro Espacial de Naro, na Coreia do Sul. O lançamento foi feito por um foguete Electron, da empresa Rocket Lab.

A escolha não foi inédita: o primeiro satélite do programa, o NEONSAT-1, também partiu de Māhia, em abril de 2024. Esses lançamentos mostram como um país pode desenvolver um satélite e recorrer a uma empresa estrangeira para colocá-lo em órbita, quando essa opção oferece as condições técnicas e operacionais mais adequadas.

A Nova Zelândia não foi escolhida apenas por ter um local de lançamento disponível. A empresa, a geografia e as regras públicas formam, em conjunto, uma infraestrutura espacial competitiva.

De país agropecuário a potência de lançamentos

A Nova Zelândia é frequentemente associada à criação de animais, à produção de laticínios e ao turismo. No entanto, o país também se tornou um dos locais mais ativos do mundo para lançamentos de foguetes em órbita. O governo neozelandês apresenta o país como o terceiro mais ativo nesse tipo de operação, e a missão de número 94 do Electron foi concluída com sucesso em 3 de setembro de 2026.

A Rocket Lab atende clientes de vários países e instituições, incluindo a NASA, as Forças Espaciais dos Estados Unidos, a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), a Agência Espacial Europeia e empresas privadas de satélites. Para esses clientes, o serviço não se resume a construir um foguete: inclui organizar a missão, preparar a carga e escolher uma trajetória compatível com o objetivo do satélite.

A expansão do setor também aparece nos indicadores econômicos. Uma pesquisa do Ministério de Negócios, Inovação e Emprego da Nova Zelândia estimou que a receita da indústria espacial chegou a 2,68 bilhões de dólares neozelandeses no ano fiscal de 2023–2024. O valor foi 53% superior ao registrado em 2019, quando a receita era de 1,75 bilhão de dólares neozelandeses.

A contribuição econômica direta e indireta foi estimada em 2,47 bilhões de dólares neozelandeses, ou 0,58% do produto interno bruto. O setor empregava cerca de 7 mil pessoas diretamente e apoiava aproximadamente 17 mil postos de trabalho quando se consideram atividades relacionadas, como produção de componentes, serviços técnicos e operações de apoio.


A aposta de Peter Beck em foguetes menores

A trajetória da Rocket Lab começou com a iniciativa de Peter Beck, que cresceu em Invercargill, no extremo sul da Ilha Sul. Desde jovem, interessava-se por máquinas e pelo espaço, mas sua formação não seguiu o caminho comum de muitos engenheiros aeroespaciais. Aos 17 anos, deixou a escola e começou como aprendiz de fabricação de ferramentas de precisão em uma empresa de eletrodomésticos.

Mais tarde, Beck trabalhou em uma instituição de pesquisa neozelandesa, onde adquiriu experiência prática com materiais compostos e tecnologias avançadas. Em 2006, fundou a Rocket Lab, em Auckland. Em 2024, recebeu uma distinção honorífica pelo trabalho realizado em áreas como a indústria aeroespacial, os negócios e a educação.

A decisão estratégica da empresa foi evitar uma disputa direta com os grandes foguetes e se concentrar em um mercado em crescimento: o de pequenos satélites. O Electron tem cerca de 18 metros de altura e pode transportar aproximadamente 300 quilos para a órbita baixa da Terra. Essa capacidade é suficiente para muitas missões que não precisam ocupar espaço em um foguete muito maior.

Foguetes grandes podem levar várias cargas de uma só vez, mas um cliente pode precisar esperar por uma missão compartilhada e aceitar uma órbita definida principalmente pelas necessidades de outros passageiros. Um lançador menor, dedicado à missão, pode oferecer mais controle sobre o calendário e o destino orbital. É como contratar um transporte específico para uma encomenda importante, em vez de esperar que ela caiba em uma viagem coletiva.

A escolha ajudou a Rocket Lab a atender empresas, universidades e agências que queriam lançar satélites menores sem depender exclusivamente de foguetes pesados. O crescimento das constelações de satélites — grupos de aparelhos que trabalham juntos, por exemplo, para observar a Terra ou transmitir dados — ampliou a demanda por serviços desse tipo.


Por que Māhia é um local estratégico

A localização de Māhia oferece vantagens que não são tão evidentes quando se pensa apenas na distância entre a Nova Zelândia e os principais mercados. A leste da península há uma extensa área do oceano Pacífico, e a região tem baixa densidade populacional e menor tráfego aéreo do que grandes centros urbanos.

Essas características facilitam a escolha de trajetórias que passam sobre o mar, reduzindo a exposição de áreas habitadas a riscos durante o voo. Também ajudam a planejar lançamentos para diferentes órbitas — os caminhos que os satélites percorrem ao redor da Terra. Assim, uma distância que pode ser um obstáculo para o comércio convencional torna-se uma vantagem para certas operações espaciais.

A base de Māhia foi planejada para oferecer até 120 oportunidades de lançamento por ano. Como a Rocket Lab opera seu próprio local de lançamento, precisa depender menos da disponibilidade de instalações compartilhadas com outros operadores. Isso permite organizar as missões com mais flexibilidade, embora cada lançamento continue sujeito a condições técnicas, meteorológicas e de segurança.

Para um cliente, a flexibilidade pode ser importante. Se um satélite estiver pronto e houver uma janela adequada para colocá-lo na órbita desejada, um calendário mais adaptável pode reduzir a espera. Em operações espaciais, porém, “lançar quando quiser” não significa ausência de controles: a segurança da população, do espaço aéreo e da carga continua exigindo planejamento e autorização.


O papel do governo: regras para uma atividade nova

Uma boa localização e uma empresa competente não bastam, por si só, para criar uma indústria. A Nova Zelândia também precisou definir quem poderia lançar foguetes, quais licenças seriam necessárias e como seriam avaliados os veículos, as instalações e os objetos enviados ao espaço.

Em 2016, o país criou uma agência espacial e assinou um acordo com os Estados Unidos sobre proteção de tecnologias. No ano seguinte, aprovou uma lei para regular atividades no espaço exterior e em grandes altitudes. O sistema estabeleceu procedimentos de autorização para foguetes, bases de lançamento e cargas transportadas.

A elaboração dessas regras acompanhou o avanço dos planos comerciais da Rocket Lab. Em vez de esperar que o setor se desenvolvesse sem um marco legal, o governo construiu uma estrutura para permitir operações privadas e, ao mesmo tempo, estabelecer responsabilidades e mecanismos de fiscalização.

O caso neozelandês ilustra como a política pública pode acompanhar uma indústria emergente: as empresas investem e testam possibilidades, enquanto o governo cria regras para que as atividades possam ocorrer de forma autorizada e previsível.

Da base de lançamento a uma empresa global

A Rocket Lab começou na Nova Zelândia, mas ampliou suas operações internacionalmente. Criou uma empresa nos Estados Unidos em 2013 e abriu capital na Nasdaq em 2021. Com o tempo, deixou de se limitar ao lançamento de foguetes e passou a atuar também em sistemas espaciais e na produção de satélites. Em 2026, estava tentando adquirir a empresa de comunicações por satélite Iridium.

Essa expansão não eliminou a importância da Nova Zelândia. A unidade de pesquisa, desenvolvimento e produção de Auckland fabrica componentes essenciais do Electron, entre eles tanques de materiais compostos, carenagens, baterias de alta tensão, conjuntos de cabos e o estágio final usado para colocar cargas na órbita desejada.

A carenagem é a cobertura que protege o satélite durante a subida pela atmosfera. Já o estágio final, chamado de estágio de inserção orbital, é uma pequena parte do foguete que ajusta a velocidade e a trajetória da carga depois que a fase principal do voo termina. Os componentes são integrados em Auckland antes de o foguete seguir para a base de Māhia.

A empresa também ampliou sua capacidade ao incorporar fornecedores de componentes de precisão e abrir um centro de controle de satélites. Isso reforça a presença local em diferentes etapas da atividade espacial: fabricação, preparação de lançamentos e operação de aparelhos em órbita.


Uma cadeia industrial que pode crescer

A Rocket Lab contribuiu para criar experiência técnica e uma rede de fornecedores que podem beneficiar outras empresas. A indústria espacial depende de muito mais do que foguetes: exige materiais leves e resistentes, peças de alta precisão, eletrônica, telecomunicações, programas de computador e equipamentos de controle.

Novas empresas neozelandesas também vêm desenvolvendo atividades aeroespaciais. A Dawn Aerospace, que tem uma de suas principais bases em Christchurch, é um exemplo de companhia que participa desse ecossistema. O governo do país estabeleceu a meta de dobrar até 2030 o tamanho dos setores espacial e de aviação avançada.

O crescimento de uma empresa pode, assim, gerar efeitos para além de suas próprias operações. Engenheiros formados no setor, fornecedores com experiência em padrões exigentes e instituições familiarizadas com licenças espaciais podem reduzir as barreiras para novos projetos. É um processo semelhante ao de uma indústria de automóveis: uma fábrica principal pode atrair empresas especializadas em peças, sensores e serviços.

A dimensão financeira internacional também aumentou o interesse pelo espaço. Em junho de 2026, a SpaceX realizou uma abertura de capital de grande escala, levantando cerca de 75 bilhões de dólares e alcançando uma avaliação aproximada de 1,77 trilhão de dólares ao preço da oferta. A Rocket Lab, por sua vez, já havia chegado ao mercado acionário cinco anos antes, em 2021.


Oportunidades de cooperação entre a Coreia do Sul e a Nova Zelândia

Os lançamentos do NEONSAT mostram uma colaboração concreta entre as capacidades dos dois países. A Coreia do Sul contribuiu com o desenvolvimento do satélite e dispõe de uma base industrial ampla em áreas como eletrônica, materiais, fabricação de precisão e tecnologia. A Nova Zelândia acumulou experiência em lançamentos comerciais, operação de bases e desenvolvimento de sistemas espaciais.

Essa combinação pode levar a parcerias que vão além de comprar um serviço de lançamento. Empresas dos dois países podem explorar fornecimento de componentes e equipamentos, pesquisa conjunta e colaboração em sistemas de comunicação e operação de satélites. Para que essas oportunidades se transformem em contratos, será necessário atender a padrões técnicos rigorosos e construir relações duradouras entre empresas e instituições.

A cadeia de fornecimento espacial inclui desde cabos e sensores até programas que controlam os aparelhos. Isso significa que empresas que não fabricam foguetes também podem participar do setor, desde que seus produtos sejam confiáveis e funcionem sob condições extremas, como vibração intensa, variações de temperatura e exposição à radiação.

A Nova Zelândia se tornou um polo de lançamentos não por uma única razão, mas pela combinação de empreendedorismo, geografia, infraestrutura produtiva, regras governamentais e conexões internacionais. A experiência mostra que um país de dimensões relativamente pequenas pode conquistar espaço em uma indústria global ao identificar uma especialidade e criar condições para que empresas e fornecedores a desenvolvam.

O desafio daqui para a frente será aprofundar essa rede e ampliar os benefícios para mais setores e parceiros. Para a Coreia do Sul, a trajetória neozelandesa pode oferecer oportunidades de cooperação e também uma lição sobre como conectar competências já existentes a um mercado emergente. O caminho do NEONSAT-1A até Māhia revela que, na economia espacial, o local de fabricação do satélite e o ponto de lançamento podem estar em países diferentes — e que essa divisão pode ser uma fonte de novas parcerias.