Em meio à alta dos juros de longo prazo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão para níveis excepcionalmente elevados, a ampliação das emissões de títulos de dívida corporativa por empresas globais para financiar investimentos em infraestrutura de inteligência artificial (IA) foi apontada como um dos fatores que elevaram os juros dos títulos públicos. A explicação é que, quando títulos públicos e corporativos competem pelos recursos dos investidores, pode haver pressão de alta não apenas sobre os custos de captação das empresas, mas também sobre os juros dos títulos públicos. Também surgiram preocupações de que a alta dos juros possa afetar os custos de empréstimo das empresas e o valor das prestações dos financiamentos imobiliários das famílias, pressionando a atividade econômica.

Contexto

Os juros dos títulos públicos de 10 anos são um indicador de referência usado para comparar os juros de longo prazo entre países. Segundo o artigo, os juros nos Estados Unidos chegaram a 5,34% durante o pregão de 1º de outubro, o nível mais alto em 24 anos, desde que haviam atingido a faixa de 5,4% em 2002. No Reino Unido, chegaram a 5,51% no mesmo dia, a máxima em 19 anos, desde 2007. Na França, subiram para 4,994% durante o pregão de 2 de outubro, atingindo o nível mais alto em 24 anos.

Os juros dos títulos públicos japoneses de 10 anos permaneceram em torno de 3,1% em outubro, após terem ficado nesse patamar no mês anterior. Embora sejam mais baixos em termos absolutos do que os de outros países, de acordo com o critério apresentado no artigo, estão no nível mais alto em 30 anos, desde 1996. Também chama a atenção o aumento de cerca de 1,45 ponto percentual em relação a um ano antes. No entanto, esses números, por si só, não permitem concluir que os juros japoneses sejam mais onerosos do que os de outros países. O ponto destacado pelo artigo é que, diante do longo período de juros baixos no Japão, tanto a dimensão da alta quanto o nível atual são excepcionais.

O artigo não atribuiu a alta dos juros a um único fator. Entre os fatores tradicionais citados estão a instabilidade dos preços internacionais de energia em decorrência da situação no Oriente Médio envolvendo o Irã e as preocupações com a deterioração das finanças públicas das principais economias. A isso se somou, segundo uma análise, uma concorrência maior por recursos no mercado de títulos, à medida que as empresas ampliam as emissões de títulos de dívida corporativa para financiar investimentos em IA.

De acordo com dados da Vanguard, as emissões de títulos de dívida das cinco empresas Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle totalizaram 132 bilhões de dólares entre janeiro e julho deste ano. Esse valor é cerca de 40% superior aos 93 bilhões de dólares emitidos ao longo de todo o ano passado. Essas empresas estão recorrendo a títulos de dívida corporativa para financiar os investimentos em infraestrutura, como centros de dados, necessários à corrida pelo desenvolvimento de IA.

As empresas tomam recursos emprestados por meio da emissão de títulos de dívida corporativa, enquanto os governos captam recursos com a emissão de títulos públicos. Em geral, os títulos corporativos oferecem juros mais altos do que os públicos, em compensação por serem menos seguros. Se a oferta dos dois tipos de títulos aumenta ao mesmo tempo, pode ser necessário oferecer rendimentos maiores para atrair investidores; nesse processo, os juros dos títulos públicos também podem sofrer pressão de alta, explica o artigo. Em um relatório, a Vanguard afirmou que a ampliação das emissões de títulos de dívida corporativa para financiar os investimentos das empresas relacionados à IA, somada ao aumento da emissão de títulos públicos pelas principais economias, intensifica a pressão de alta sobre os juros de longo prazo.

O que essa notícia significa

Quando os juros sobem, as empresas que precisam tomar novos empréstimos ou cujas taxas são reajustadas podem enfrentar custos de financiamento maiores. As famílias também podem ter de pagar prestações mais altas de financiamentos imobiliários. No entanto, o artigo trata dos juros dos títulos públicos das principais economias e das preocupações com os encargos decorrentes. Isso não significa que as taxas de empréstimo de todas as empresas ou as prestações de todas as famílias mudarão na mesma proporção ou imediatamente.

Por exemplo, uma família cujo financiamento imobiliário esteja perto de ter a taxa reajustada talvez precise verificar como a alta dos juros afetará o valor efetivo das prestações mensais. Por outro lado, as mudanças percebidas podem variar conforme as condições do empréstimo e o momento do reajuste da taxa. Esse exemplo não significa que os níveis de juros mencionados no artigo determinem diretamente a taxa do financiamento de uma família específica.

Do ponto de vista dos investimentos empresariais, a demanda por infraestrutura de IA pode, ao mesmo tempo, aumentar as emissões de títulos de dívida corporativa e elevar os custos de captação por meio de títulos. Como os governos que emitem títulos públicos e as empresas que emitem títulos corporativos buscam recursos ao mesmo tempo, chama a atenção o fato de que a expansão dos investimentos em IA pode afetar não só o mercado de ações, mas também a formação dos rendimentos no mercado de títulos. No entanto, o artigo não apresenta números sobre quanto as emissões de títulos de dívida corporativa de empresas de IA contribuíram para a alta dos juros de longo prazo nos diferentes países.

O que foi confirmado e o que ainda não se sabe

Fatos confirmados

  • Os juros dos títulos públicos de 10 anos dos Estados Unidos chegaram a 5,34% durante o pregão de 1º de outubro, e os do Reino Unido atingiram 5,51% no mesmo dia.
  • Os juros dos títulos públicos franceses de 10 anos subiram para 4,994% durante o pregão de 2 de outubro.
  • Os juros dos títulos públicos japoneses de 10 anos ficaram em torno de 3,1% também em outubro e subiram cerca de 1,45 ponto percentual em relação a um ano antes.
  • As emissões de títulos de dívida da Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle totalizaram 132 bilhões de dólares entre janeiro e julho deste ano, cerca de 40% a mais do que os 93 bilhões de dólares emitidos ao longo de todo o ano passado.
  • A instabilidade dos preços de energia, as preocupações com a deterioração das finanças públicas e a ampliação das emissões de títulos de dívida corporativa pelas empresas foram citadas como fatores que influenciam a alta dos juros.

O que ainda não se sabe

  • Não foi informado o valor exato da contribuição da ampliação das emissões de títulos de dívida corporativa ligadas à IA para a alta dos juros de longo prazo nos diferentes países.
  • Não foi possível determinar por quanto tempo os níveis de juros mencionados no artigo continuarão a se manter.
  • Somente com base no artigo, não é possível saber em que medida a alta dos juros dos títulos públicos das principais economias será repassada aos custos de empréstimo de empresas específicas ou às prestações dos financiamentos imobiliários das famílias.

O que os leitores devem verificar

  • Quem tem um financiamento imobiliário pode consultar o contrato para verificar o tipo de taxa e quando ela será reajustada, distinguindo assim as variações dos juros dos títulos públicos das mudanças efetivas no valor das prestações.
  • Quem estiver prestes a captar recursos para uma empresa ou negócio deve verificar as taxas e as condições oferecidas para empréstimos ou emissões de títulos. Não se deve presumir que os juros dos títulos públicos mencionados no artigo sejam iguais às condições de empréstimo de cada caso.
  • É preciso acompanhar notícias posteriores para saber se a tendência de alta dos juros nas principais economias continuará. Com base apenas neste artigo, não é possível determinar por quanto tempo a alta vai persistir.