A queda parou, mas a perda de apoio permanece

A avaliação do governo do presidente sul-coreano Lee Jae-myung parece ter interrompido a queda, mas ainda está muito abaixo dos níveis registrados pouco depois de sua eleição. Em uma pesquisa divulgada em 30 de setembro, 38,5% avaliaram positivamente sua atuação e 57,8% deram uma avaliação negativa. Duas semanas antes, os índices eram de 35,9% e 59,4%, respectivamente.

Outra pesquisa, publicada em 1º de outubro, registrou 43% de aprovação e 50% de desaprovação. Os números variam conforme a metodologia e o momento de cada levantamento, mas o quadro geral é claro: a popularidade do presidente sofreu uma forte deterioração desde o início do mandato.

A estabilização recente pode ter duas explicações. A primeira é que a indignação de parte do público diminuiu depois de Lee pedir desculpas em uma entrevista coletiva, pouco antes do feriado de Chuseok, e de um indicado ao cargo de ministro da Justiça desistir da nomeação no dia seguinte. A segunda é que a aprovação pode ter chegado a um patamar mínimo sustentado pelos apoiadores mais fiéis, conhecidos como base sólida: pessoas que tendem a continuar apoiando um líder mesmo quando sua popularidade cai.

Uma pausa na queda não significa que a confiança foi recuperada. O principal desafio do governo é entender quem se afastou e o que poderia convencê-lo a voltar.

O eleitorado moderado foi decisivo

A comparação entre maio e setembro mostra a dimensão da mudança. Em maio, a aprovação de Lee era de 63%, enquanto a desaprovação ficava em 28%. Em setembro, a aprovação havia caído para 38%, e a desaprovação subido para 53%. Em apenas quatro meses, a relação entre avaliações positivas e negativas se inverteu.

A piora apareceu em diferentes regiões, faixas etárias e grupos políticos. Mas a mudança entre os eleitores moderados — pessoas que não se identificam firmemente nem com a direita nem com a esquerda — foi especialmente significativa. Nesse grupo, a aprovação passou de 64% para 37%, enquanto a desaprovação avançou de 26% para 53%.

Também houve recuo entre os eleitores de esquerda, que formam parte importante da base política do presidente. A aprovação nesse segmento caiu de 91% em maio para 62% em setembro. Ainda assim, a perda entre os moderados foi maior e ajuda a explicar por que a queda atingiu o resultado geral de forma tão intensa.

Uma análise de centenas de pesquisas presidenciais registradas desde o começo do mandato chegou a uma conclusão semelhante: a proporção de moderados que apoiavam Lee caiu de cerca de 66% para 40%. Entre os eleitores de esquerda, a queda foi de aproximadamente 79% para 53%. Isso indica que o problema não se limita ao enfraquecimento da base tradicional; o afastamento do centro político teve peso considerável.

A disputa entre a base fiel e os eleitores indecisos

Na política, costuma-se resumir essa escolha como a busca por “coelhos de casa” ou “coelhos do campo”: em outras palavras, manter os apoiadores habituais ou conquistar eleitores que ainda não estão comprometidos com um partido. Não existe uma fórmula que funcione em todas as situações. Em disputas internas de um partido, mobilizar a base costuma ser decisivo; em eleições nacionais, ampliar o apoio para além dela tende a ser necessário para vencer.

Para Lee e seu partido, o desafio imediato é recuperar os moderados sem afastar quem já os apoia. O presidente chegou ao poder prometendo tanto responsabilizar os envolvidos na crise institucional anterior quanto governar com pragmatismo e atenção às necessidades concretas do país. Se a primeira promessa está, na avaliação apresentada no debate político, entrando em sua fase final, agora cresce a expectativa de que o governo demonstre o que significa, na prática, governar de forma moderada e pragmática.

Por que a popularidade importa para governar

A aprovação de um presidente não é apenas um indicador de imagem. Ela também funciona como uma espécie de capital político (a confiança pública que ajuda um governante a obter apoio para suas decisões). Quando a população acredita que o governo age com competência e justiça, parlamentares, grupos sociais e até setores críticos podem estar mais dispostos a negociar.

O inverso também acontece: com baixa aprovação, uma proposta que poderia ser considerada razoável passa a enfrentar mais suspeitas, oposição e interpretações negativas. É como tentar organizar uma reforma importante em uma empresa quando os funcionários já não confiam na direção; mesmo mudanças necessárias podem ser vistas como ameaça ou favorecimento.

Essa fragilidade pode dificultar os grandes projetos anunciados pelo governo e reduzir a capacidade de transformar promessas em políticas públicas. Também pode afetar o desempenho do partido governista nas próximas eleições locais e legislativas. Uma derrota parlamentar, por sua vez, pode comprometer a continuidade de reformas, inclusive as relacionadas às instituições judiciais e ao sistema de investigação.

A popularidade não garante bons resultados por si só, mas oferece ao governo espaço para explicar decisões difíceis, negociar e enfrentar resistências. Sem esse espaço, a capacidade de governar pode se reduzir justamente quando o presidente mais precisa dela.

Kim Young-sam: reformas fortes precisam de apoio público

A experiência de Kim Young-sam, presidente entre 1993 e 1998, mostra como uma ampla confiança popular pode permitir mudanças profundas. No primeiro ano de seu mandato, ele promoveu a divulgação dos bens de altos funcionários, desmantelou a rede militar conhecida como Hanahoe e instituiu a reforma que tornou mais transparente o uso de nomes reais em transações financeiras.

Essas medidas enfrentavam interesses estabelecidos e não eram simples de executar. Kim atribuiu a capacidade de avançar à liderança do governo e ao apoio da população. A lógica é direta: uma reforma pode exigir sacrifícios ou causar desconforto no curto prazo; se os cidadãos acreditam que o esforço é necessário e compartilhado, a resistência pode diminuir.

Mas o fim de seu mandato oferece uma advertência. Em dezembro de 1996, uma alteração na legislação trabalhista foi aprovada de forma acelerada no Parlamento, sem o processo de debate que a oposição considerava adequado. A controvérsia provocou uma forte reação pública e se tornou um dos episódios que enfraqueceram o governo.

Kim argumentou que adiar a mudança poderia prejudicar a competitividade econômica do país. Ainda assim, a decisão de avançar sem construir apoio suficiente teve um custo político elevado. A lição não é que governos devam abandonar reformas difíceis, mas que a urgência de uma política não substitui a necessidade de explicá-la, negociá-la e conquistar legitimidade.

Uma advertência sobre o momento e o método

O caso também mostra que o calendário político importa. Uma iniciativa controversa pode ser especialmente difícil de sustentar na segunda metade de um mandato, quando a autoridade do presidente costuma diminuir e os partidos começam a olhar para as eleições seguintes.

Para o governo de Lee, isso significa que propostas de grande alcance precisam vir acompanhadas de uma explicação pública clara: qual problema resolvem, quem será afetado, quais proteções existirão e por que o custo é justificável. Consultas e negociações podem levar tempo, mas também ajudam a impedir que uma política seja percebida como uma decisão imposta de cima para baixo.

Roh Moo-hyun: olhar para o futuro sem perder o público

A trajetória de Roh Moo-hyun, presidente entre 2003 e 2008, destaca outro aspecto: a relação entre popularidade e capacidade de persuasão. Um de seus antigos assessores relatou que, quando a aprovação estava alta, as pessoas pareciam mais abertas a ouvir as propostas do presidente. Quando ela caía, até ideias razoáveis eram recebidas com desconfiança ou mal-entendidos.

Roh era conhecido por tentar antecipar mudanças e preparar o país para desafios de longo prazo. Esse tipo de liderança pode ser valioso, porque governos precisam agir antes que certos problemas se tornem crises. Mas há uma dificuldade: se a população não entende por que uma mudança é necessária agora, uma visão de futuro pode parecer distante das preocupações cotidianas.

A reflexão atribuída a essa experiência é que um presidente deve olhar adiante, mas explicar suas decisões a uma distância que as pessoas consigam acompanhar. Em vez de apresentar várias mudanças como um salto repentino, pode ser mais eficaz mostrar etapas concretas, resultados esperados e consequências práticas para famílias, trabalhadores e empresas.

A integração nacional também depende dessa comunicação. O objetivo de unir grupos com interesses diferentes exige mais do que declarar boas intenções; requer reconhecer as preocupações de cada lado e demonstrar que as decisões não são feitas apenas para recompensar os aliados políticos do governo.

Lee Hae-chan: valores firmes, métodos realistas

Lee Hae-chan, ex-líder do Partido Democrático, defendia uma ideia que combina princípios e pragmatismo: aprender os valores com a história e os métodos com a realidade. Em outras palavras, manter objetivos de longo prazo, mas escolher caminhos que possam funcionar nas condições concretas do presente.

Essa abordagem se distingue do fundamentalismo político, que trata qualquer concessão como traição e pode transformar divergências em confrontos sem saída. Uma política reformista, por outro lado, não precisa abandonar seus valores para ajustar os instrumentos. Pode preservar o objetivo e modificar o ritmo, a sequência ou os meios para ampliar a aceitação e tornar a mudança mais duradoura.

Esse princípio é particularmente relevante quando o governo enfrenta desacordos dentro do próprio campo político. Se toda decisão for tomada para evitar críticas dos apoiadores mais próximos, o presidente corre o risco de deixar de representar a maioria mais ampla. E, se decisões importantes forem abandonadas sempre que houver resistência interna, torna-se difícil demonstrar liderança e responsabilidade.

O pragmatismo não significa ausência de princípios. Significa escolher meios realistas para que os princípios produzam resultados concretos.

O dilema de Lee e os próximos passos

O debate em torno de mudanças no processo penal e dos poderes de investigação dos promotores ilustra a tensão. Lee havia defendido que a possibilidade de investigações complementares pelos promotores fosse mantida apenas em situações excepcionais, mas desistiu dessa posição diante da oposição de dirigentes do partido. Em outro caso, o processo de nomeação de um candidato para chefiar uma agência de investigação de crimes graves foi atrasado após críticas de políticos da mesma coalizão.

Esses episódios alimentam a percepção de que o presidente está excessivamente atento às exigências da base mais fiel. Ouvir aliados é parte normal da política democrática, mas consultar não é o mesmo que entregar a eles toda a decisão. Um presidente precisa explicar por que escolheu determinada direção e assumir responsabilidade por suas consequências.

A recuperação da popularidade não virá apenas de discursos ou de gestos de conciliação. Para reconquistar os moderados, o governo terá de mostrar resultados reconhecíveis no cotidiano, comunicar com clareza as razões de suas decisões e demonstrar disposição para corrigir políticas que não funcionem. Também precisará evitar que a busca por consenso se transforme em inércia.

As experiências históricas apontam para um equilíbrio difícil, mas possível: Kim Young-sam mostra o valor do apoio popular para realizar reformas; Roh Moo-hyun, a necessidade de aproximar as visões de longo prazo da compreensão imediata do público; e Lee Hae-chan, a importância de combinar compromissos históricos com métodos realistas. Para Lee Jae-myung, o desafio é avançar para além de sua base mais leal e convencer o centro político de que o pragmatismo prometido será visível nas decisões do governo.

O que pode indicar uma recuperação

Nos próximos meses, alguns sinais serão importantes para avaliar se o governo está conseguindo reverter a tendência:

  • Aprovação entre moderados: uma recuperação nesse grupo pode indicar que o presidente voltou a alcançar eleitores fora de sua base tradicional.
  • Confiança nas decisões: o público precisa perceber que as políticas são explicadas com transparência e aplicadas de forma coerente.
  • Resultados concretos: medidas que respondam a problemas diários podem tornar mais convincente a promessa de governar com pragmatismo.
  • Capacidade de negociação: reformas duradouras exigem apoio que ultrapasse os aliados mais próximos do governo.

Nenhum desses sinais, isoladamente, garante uma vitória eleitoral ou o sucesso de uma reforma. Em conjunto, porém, eles podem mostrar se o governo está reconstruindo a confiança necessária para governar com eficácia.